A CHUVA E O BANCO DE COURO BEGE …………………………………………………………………………

chuvaConfesso que nas últimas semanas estou encantado com meu canal no youtube, aquele lá que falei anteriormente que tem um nome ridículo …

 mas que sem querer acabou dando certo, o “preprograma”. Não pela vaidade de estar numa telinha e saber que milhares de pessoas estão me vendo, nem por dinheiro, mas por saber que de alguma forma é possível levar informação, entretenimento e meu ponto de vista a qualquer pessoa conectada na Internet.

Esse era o meu objetivo e de certa forma a pequenos passos estamos caminhando. É fantástico sentir que uma pessoa que nem te conhece te viu, te escutou e está opinando e interagindo com você, através de críticas, opiniões e sugestões. No entanto, apesar do encanto pelo novo estava com saudades aqui das letras, do teclado, das palavras, do texto escrito. Evidente que o vídeo é uma forma de expressão como o texto, e na maioria dos casos o texto vira realidade através do ator. Complementarmente a tudo isso estou fazendo um Curso de Atores na Escola Wolf Maya em São Paulo onde estão compreendidos teatro, canto e dança, tv e cinema. Para um advogado de formação como eu transitar por tantas formas de expressão e comunicação é algo incrível. Agradeço a Deus e a Vida por isso tudo.

Contudo, não sei por que, mas é aqui no texto, escutando minhas músicas, na meia luz e envolvido pelas minhas reflexões, pensamentos no embaralhar das palavras que me sinto melhor e gosto de estar. Escrever para vocês, caros leitores, é um privilégio e um prazer únicos para mim. Ao menos no meu caso é através da música, e do texto, isto é, no tocar o meu piano e na busca da palavra mais encaixada no texto que me elevo a outro patamar e grau espirituais. Transmissão de sentimentos pela nota musical e com a proposição das palavras mais acertadas onde a procura não é pela multidão, mas por saber que 100 ou 50, ou 10 ou mesmo 1 pessoa conseguiu notar e com sua sensibilidade captar uma emoção que foi um pouco além da derme passando pelo invisível do espírito e da alma que escrevo a crônica dessa semana. Ela será curta, pequena, mas pediria a vocês que ao final da leitura, fechassem seus olhos por 30 segundos e viajassem da maneira que quiserem na cena que narrarei abaixo. Pensem em coisas boas, que assim, elas virão até vocês. Se estiverem perto de um computador ou mesmo lendo pela Internet, sugiro uma trilha sonora para fazer companhia na leitura. De autoria de Willie Nelson na voz e interpretação de Patsy Cline a canção “Crazy” www.youtube/K-wJNpWgss8

Antes de iniciar apenas gostaria esclarecer que não pretendo fazer qualquer tipo de demagogia ou demonstrações de caridade e humanidade. Mas, tenho certeza, ou prefiro crer que todos, mesmo os que se tornaram mais rígidos consigo mesmo pelas cicatrizes da vida, que não tenham momentos de emoção que aparentemente não fazem o menor sentido, mas estão ali, que acontecem independentemente de nossas vontades. Portanto, relatarei à vocês um momento especial que passei essa semana de mim para eu mesmo.

Saí correndo, atrasado como sempre, com as chaves e celulares nas mãos. O dia estava nublado, previsão de chuva em São Paulo. Entrei correndo no meu carro, precisava buscar uma encomenda de qualquer jeito em outro ponto da cidade. Atrasado e correndo. Sim. Mas dentro de um maravilhoso carro preto com bancos de couro bege e acabamentos de madeira nobre. Acelerava, setas para um lado, setas para outro e entre curvas, freadas e aceleradas me dirigia ao meu destino. Era final de tarde. Trânsito na cidade e eu em cima de uma longa ponte parado. A chuva começou. Desliguei o rádio. Fazia tempo que não parava para escutar atentamente o barulho da chuva, dos trovões, das gotas d’água batendo e se dissipando no parabrisa do meu carro. Olhei para cima, através do teto solar do carro a chuva que começava num Adagio num pianíssimo, com gotas que davam para ver caindo, pequeninas no início e que ficavam maiores conforme se aproximavam até se espatifarem no teto solar do meu carro. Mas o Adagio foi curto. Se fosse uma partitura teria no máximo duas páginas. Logo se iniciava o segundo movimento. Uma chuva em Presto. Rápida, intensa, mas com seu toque de dramaticidade. Com raios, trovões, um fortíssimo com todas as letras mas sem deixar de transmitir sua emoção. Não havia aquele ar de um Allegro, que além de ágil, rápido, possui um toque de felicidade e prazer.

Quando cheguei ao meu destino, a chuva não dava trégua, não dava nem para sair do carro. Teria que caminhar um trecho que seria o suficiente para me encharcar. Não tinha guarda-chuva, afinal não costumo ir a lugares descobertos. Contudo, mesmo que tivesse uma “sombrinha” no carro, de nada adiantaria, a chuva era muito intensa.

Permaneci no carro, dentro do conforto e proteção do meu “grande” automóvel. 10 minutos se passaram, mais 20, até bater meia hora de espera. Ou desistia ou enfrentava a chuva. Durante esses 30 minutos observei o movimento da rua. Era um bairro simples, mais afastado. E via pessoas e mais pessoas, inclusive com crianças andando a passos rápidos pela calçada da avenida em que me encontrava. E, eu ali. Sentado no meu banco de couro bege, com medo de me molhar. Aqueles 30 minutos observando aquela multidão passando, tomando chuva, com sacolas nas mãos e até rindo foi me deixando agoniado. Fiquei agoniado porque não sei de onde, estava com o pensamento fixo que não poderia me molhar. Ridículo. O que me fazia diferente daquelas pessoas? Afinal, sou um ser humano igual a elas. O mesmo sangue vermelho corre pelo nosso corpo. O que me fazia intocável? O que me fazia melhor? Meu carro? Meu dinheiro? Fui possuído por um sentimento de revolta contra eu mesmo.

Abri a porta do carro. Já comecei molhando meu braço e a porta do meu carro forrada com o bendito couro bege e o acabamento com a madeira nobre. Quando fechei a porta do carro já estava molhado. Mas, pensei. Se essas pessoas andam debaixo de chuva porque eu não posso andar? O que a chuva pode me fazer de mal? Demagogias a parte, se eu pegasse uma pneumonia, meu super plano de saúde resolveria, mas se aquelas pessoas ficassem doentes, cairiam na rede pública de saúde podendo vir a óbito. E, eu, sentado na minha arrogância não poderia tomar chuva??? Caminhei a passos rápidos, quase correndo, com a cabeça abaixada, como se isso fosse me impedir de tomar chuva. Pulei as poças de água. Mas logo em seguida havia um tipo de subidinha. Da tal rampinha descia uma enxurrada de água. Não tinha como pular ou escapar. Por 2 segundos fiquei parado e pensei: volto para o carro ou subo a tal da rampa? Obviamente subi a rampa. Não sou de voltar no meio do caminho. Nos dois primeiros passos meu tênis já estava completamente molhado daquela água barrenta. O meu tênis que havia custado centenas de reais. Enfim, subi, peguei o pacote e fui embora.

Mas na volta como se fosse resolver alguma coisa saí correndo. De repente parei. Não sei até agora porquê. Mas parei de correr. Comecei a andar, a sentir a chuva no meu corpo, o meu pé gelado sendo tomado pela água barrenta, minha camiseta grudada em meu corpo, a calça jeans pesada, e aquela água quase da cor do tal couro do banco do meu carro passando por cima dos meus pés. Semelhantemente a um maluco olhei para o céu. Senti a Chuva em meu rosto escorrendo por todo meu corpo. Ela me castigava como um açoitamento. Soltou trovões. Olhei bem para aquele céu cinza escuro e gritei dentro de mim mesmo: De qualquer forma, obrigado por tudo!!!

Abri a porta do meu carro, olhei para o banco bege e disse para ele: Sinto muito, vou me sentar, molhar você e até manchá-lo, mas e daí? Você é só um banco de carro.

Uma ótima de semana a todos vocês!!!

 

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